IFRS 18 / CPC 51 e o EBITDA: o que o caso da Ambev revela sobre a nova era das Demonstrações Financeiras
- LX Auditoria & Consultoria

- 22 de mai.
- 4 min de leitura
O EBITDA continuará existindo. Mas a forma de apresentá-lo está mudando.
Durante muitos anos, o EBITDA se consolidou como um dos indicadores financeiros mais utilizados pelo mercado.
Ele é utilizado em:
valuation de empresas;
análise de crédito;
covenants bancários;
bônus de executivos;
relatórios gerenciais;
apresentações para investidores;
operações de M&A.
Na prática, o EBITDA se tornou uma das principais métricas de “performance operacional” das empresas.
Mas existe um ponto importante:
Embora amplamente utilizado, o EBITDA nunca foi uma métrica oficialmente padronizada pelas normas IFRS.
E é exatamente aqui que a chegada da IFRS 18 — refletida no Brasil pelo CPC 51 — começa a provocar mudanças relevantes na forma como esse indicador será interpretado, conciliado e apresentado ao mercado.
O que muda com a IFRS 18 / CPC 51?
A IFRS 18 altera significativamente a estrutura de apresentação da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE).
A norma cria uma organização mais padronizada das demonstrações financeiras, dividindo a DRE em categorias obrigatórias:
Operacional;
Investimentos;
Financiamentos;
Tributos sobre o lucro;
Operações descontinuadas.
Além disso, a norma passa a exigir subtotais padronizados e formalmente identificados, como:
• Lucro Operacional (Resultado gerado pelas operações principais da empresa
• PBIT (Lucro antes dos Juros e Impostos sobre a renda (IR/CS)
O objetivo central é aumentar:
comparabilidade;
transparência;
consistência;
e qualidade da comunicação financeira.
Na prática, a IFRS 18 busca reduzir a subjetividade atualmente existente na construção de indicadores gerenciais.
O ponto central: o EBITDA deixa de ser “livre”
A IFRS 18 não proíbe o uso de EBITDA ajustado.
Mas ela aumenta significativamente o nível de transparência exigido para métricas gerenciais divulgadas pelas empresas.
Esses indicadores passam a ser classificados como:
MPM — Management Performance Measures
(Medidas de Desempenho Gerencial)
Ou seja: sempre que uma empresa divulgar um EBITDA ajustado diferente do resultado operacional oficial apresentado na DRE, ela deverá explicar formalmente:
quais ajustes foram feitos;
os valores envolvidos;
a natureza de cada exclusão;
e o motivo pelo qual a administração entende que aquele ajuste melhora a análise de desempenho.
Em outras palavras:
o mercado continuará vendo EBITDA ajustado.
Mas agora haverá muito mais pressão por reconciliação, consistência e justificativa técnica.
O caso da Ambev: um exemplo prático da mudança
Os resultados divulgados pela Ambev no 1T26 ajudam a ilustrar de forma bastante clara os efeitos da nova estrutura da IFRS 18.
A companhia reportou:
Receita líquida: R$ 22,5 bilhões;
EBITDA ajustado divulgado: R$ 7,555 bilhões;
Margem EBITDA ajustada: 33,6%.
Contudo, ao reorganizar a DRE conforme a lógica da IFRS 18, o ponto de partida deixa de ser o EBITDA “ajustado” divulgado pela administração.
O foco passa a ser o Lucro Operacional oficial da demonstração financeira.
Como o EBITDA seria reconstruído sob a IFRS 18
Estrutura simplificada:
Lucro Operacional (IFRS 18): R$ 5.951,5 milhões
(+) Depreciação e amortização R$ 1.603,5 milhões
(=) EBITDA reconciliado R$ 7.591,5 milhões
O que explica a diferença?
A diferença em relação ao EBITDA ajustado divulgado atualmente é de aproximadamente:
+R$ 36,5 milhões
Esse delta decorre principalmente de itens não usuais líquidos do período, incluindo:
ganhos na reestruturação de subsidiárias;
custos de reestruturação;
efeitos extraordinários específicos do trimestre.
Hoje, muitas empresas conseguem excluir determinados efeitos do EBITDA ajustado sem um nível elevado de detalhamento formal.
Com a IFRS 18, isso muda.
Cada ajuste precisará ser:
reconciliado numericamente;
descrito individualmente;
tecnicamente justificado;
e conectado à narrativa financeira da administração.
Por que isso é relevante para o mercado?
Porque o EBITDA impacta diretamente decisões econômicas relevantes.
Estamos falando de efeitos sobre:
Valuation;
múltiplos EV/EBITDA;
covenants financeiros;
contratos de dívida;
remuneração variável de executivos;
análise de crédito;
percepção de performance operacional.
Empresas que hoje possuem métricas excessivamente “customizadas” poderão enfrentar:
maior escrutínio;
comparabilidade mais rigorosa;
redução de subjetividade;
e maior transparência nas reconciliações.
A IFRS 18 não muda apenas a contabilidade
A IFRS 18 não trata apenas de reorganizar linhas da DRE.
Ela altera:
a forma como o mercado interpreta performance;
a forma como investidores comparam empresas;
a qualidade da comunicação financeira;
e o nível de governança esperado das organizações.
Na prática, a norma reduz espaço para:
EBITDA “cosmético”;
ajustes excessivamente subjetivos;
reclassificações pouco transparentes;
e métricas pouco consistentes entre períodos e empresas.
O impacto para empresas brasileiras
Embora muitas organizações ainda enxerguem a IFRS 18 como um tema puramente contábil, os impactos serão multidisciplinares.
As empresas precisarão revisar:
estrutura das Demonstrações Financeiras;
indicadores gerenciais;
políticas contábeis;
controles internos;
integração entre financeiro e contabilidade;
comunicação com investidores e bancos.
Além disso, será cada vez mais importante garantir:
rastreabilidade dos ajustes;
documentação técnica;
coerência na divulgação de métricas;
e alinhamento entre relatórios gerenciais e demonstrações financeiras.
Conclusão
O caso da Ambev evidencia exatamente o espírito da IFRS 18:
A norma não busca necessariamente mudar os números.
Ela busca mudar:
a qualidade da apresentação;
a transparência das métricas;
e a comparabilidade entre empresas.
O EBITDA continuará sendo uma métrica extremamente relevante.
Mas a nova realidade exigirá:
mais reconciliação;
mais clareza;
menos subjetividade;
e mais governança na construção dos indicadores divulgados ao mercado.
As empresas que começarem agora sua adaptação provavelmente terão vantagem competitiva na transição.
Porque, no novo cenário, não bastará apenas apresentar números.
Será necessário explicar, justificar e sustentar tecnicamente a narrativa financeira construída sobre eles.
Na LX Auditoria & Consultoria
acompanhamos continuamente os impactos da IFRS 18 / CPC 51 nas Demonstrações Financeiras, indicadores gerenciais e processos de governança corporativa.
Apoiamos empresas em:
revisão de DRE e indicadores;
adequação ao IFRS 18;
reconciliação de métricas gerenciais;
revisão de políticas contábeis;
fortalecimento da transparência financeira.
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